segunda-feira, 12 de julho de 2010

Domingos do tamanho do palco

Domingos Oliveira, 73 anos, é um dos últimos românticos. Se há um tema que une toda sua obra, segundo ele, é o amor. Diretor, escritor e ator, contabiliza mais de 150 títulos – no teatro, no cinema e na TV. E o número apenas aumenta. O livro que ele está lançando, Minha Vida no Teatro (Editora Leya), reúne os textos de nove peças escritas na última década. O capítulo que fecha o volume, “Do Tamanho da Vida”, traz suas reflexões sobre o teatro (registradas em 1986), publicadas anteriormente em um livro à parte.


Desde sua estreia na direção teatral, em 1962, com Sétimo Céu, são quase 50 anos de profissão. Recentemente esteve em cartaz, no Rio de Janeiro, com uma nova versão de Do Fundo do Lago Escuro, peça sobre sua infância em que interpretou sua avó.

Foi casado com Leila Diniz, a quem dirigiu no filme Todas as Mulheres do Mundo (1967). Desde 1982, está casado com a atriz Priscilla Rozenbaum, parceira em diversas produções. Nesta entrevista, concedida por telefone e e-mail, ele explica por que toda arte é de autoajuda, define o teatro como uma “arte maior” e conta o que, afinal, busca nas mulheres.

Zero Hora – Comparando sua produção artística e sua vida, parece que a ideia de “viver da arte” é inseparável da “arte de viver”.

Domingos Oliveira – Aliás, A Arte de Viver será o título do meu próximo livro. Será uma atualização da minha filosofia, exposta em Duas ou Três Coisas que Sei Dela, a Vida (Objetiva, 1994). É o meu lado pensador, mesmo. Pode ser também que se chame Três ou Quatro Coisas que Sei Dela. Na verdade, queria chamar de A Vida é uma Puta, que é o título de um poema meu. Será um livro de autoajuda. Acho que toda arte é de autoajuda.

ZH – Como assim?

Oliveira – A arte só é válida quando serve para melhorar a vida das pessoas. Se você não aprende algo para usar depois, não é arte. A arte explica o mundo. Posso não ter ideia do que seja a guerra, mas se assisto a um bom filme de guerra como O Resgate do Soldado Ryan (1998), do Spielberg, saberei o que é.

ZH – As peças do livro representam sua produção mais recente. Há características que as diferenciam das que você escreveu até então?

Oliveira – A ligação sou eu mesmo. Não é uma relação visível para quem vê de fora porque são textos de estilos diferentes entre si. Mas uma característica é o humor. São raras as minhas peças que não têm humor. Me parece o único modo sério de falar das pessoas. Muitos sucessos meus são comédias românticas, do tipo que chamo de comédias comoventes, em que a lágrima mobiliza, justifica o riso. Sou um escritor sério que cada vez mais se esforça para fingir que não é.

ZH – Desde Aristóteles há uma ideia de que a comédia seria um gênero menor. Você trabalha na contramão disso.

Oliveira – Eu e muita gente: Chaplin, Woody Allen, Groucho Marx. Hoje, quem acha que comédia é um gênero menor é um imbecil. O teatro brasileiro é feito em cima da comédia. É difícil ser brasileiro sem optar por esse gênero. O brasileiro é uma comédia. A condição humana é uma comédia.

ZH – Na sua visão, já se consolidou no Brasil uma tradição dramatúrgica ou ainda temos apenas nomes esparsos na história?

Oliveira – Você sabe a resposta, é a segunda opção. Se dá muito pouca importância à dramaturgia no país. Um livro com peças de teatro não vende muito. No Exterior, é claro que eles compreendem que a arte é talvez a atividade mais importante da sociedade. Agora estão começando a publicar teatro aqui, mas é difícil. Por isso, não se pode deixar de observar duas coisas sobre meu novo livro. Primeiro, a coragem da editora em publicar a obra de um autor brasileiro. É de um risco comercial grande, porque peças de teatro não vendem bem no país. A segunda é a novidade editorial de diagramar as peças de modo que lembre a emoção das falas do espetáculo. Se você não quiser ler as rubricas (as orientações de cena), pode pular facilmente. Nesse sentido, é um livro experimental.

ZH – Além do teatro, você produz para cinema e TV – que, por suas naturezas, atingem um público mais numeroso. Você se questiona sobre por que continua a fazer teatro?

Oliveira – Adoro o cinema, mas acho que o teatro é uma arte maior como aventura humana. No cinema, você pode sempre contar com uma paisagem para preencher o tempo. No teatro, não. É só o homem. E mais: é só o que o homem fala e faz. A aventura do ator, pelo menos, é muito maior. O teatro é real, pode-se morrer em cena. O que se sente dentro de uma sala de espetáculo não se sente em lugar algum. Acabou de sair de cartaz aqui (no Rio de Janeiro) uma peça sobre minha infância, chamada Do Fundo do Lago Escuro, em que eu interpretava o papel da minha avó. Só o teatro pode proporcionar isso. A energia que vai do público para o ator – e vice-versa – é poderosíssima. É como se as consciências da plateia e dos atores fossem uma só.

ZH – Em um trecho da cronologia de sua vida e obra, ao final do livro, está escrito que dos 23 aos 25 anos você “bebe muito”. Depois se casa com Leila Diniz. Sua juventude até que foi bastante divertida, não?

Oliveira – (Gargalhadas) Sabe a diferença do homem sábio e do homem comum? Apesar de todos acabarem morrendo, o sábio se diverte mais (risos). Quero que a vida continue divertida enquanto eu existir.

ZH – Na sua vida – e na sua arte – as mulheres estão muito presentes. O que você busca nelas?

Oliveira – A paixão, talvez. Talvez o sexo. Esses dois sentimentos é o que de melhor a vida oferece. Busco os dois incessante e obsessivamente, desde a minha primeira consciência.

ZH – Você concorda com a ideia de que o artista está sempre fazendo a mesma obra? Qual seria o tema da sua obra?

Oliveira – O amor. Que mais há?


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POR FÁBIO PRIKLADNICKI (Zero Hora)
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